Às duas e meia da manhã, acordei com o barulho dos outros três do meu quarto se arrumando para subir a montanha. Levantei, lavei o rosto e fui tomar café da manhã. Como o Wilfred achou que sair às três seria suficiente - já que fomos bem rápidos ontem - não me apressei. Na verdade, esperei todo mundo sair.
Às três e quinze, começamos a caminhar. O termômetro em Laban Rata indicava 7ºC. A subida passava por um caminho iluminado pelos lodges ate afundar num breu total. No final do primeiro quilômetro, já tinhamos ultrapassado a maioria dos grupos, deixando pra frente só os que começaram bem cedo. Parecia que mais uma vez faríamos um bom tempo. Por algum motivo, eu não me cansava. Não sou do tipo mais atlético, mas eu não sentia nenhuma necessidade (ou vontade) de parar. Até o meu guia parou. Wilfred fala pra eu continuar, que ele me alcançaria.
Por volta do quilômetro sete e meio, passei o último grupo. Me disseram que sairam de Laban Rata as 2:30, quarenta e cinco minutos antes de mim, e mesmo assim eu os ultrapassava! Às 4:45, eu chegava ao topo, pra minha surpresa. No breu, o cume era só uma ideia vaga que os relâmpagos da tempestade distante delineavam seu contorno.
Por dez minutos, estava sozinho. Me sentia nas nuvens. Na verdade... Eu estava bem acima delas, que cobriam as florestas lá embaixo! Meu guia ainda demorou uns dez minutos para chegar. "Mau, you are a mountain lion!", disse, me parabenizando pela subida em uma hora e meia. Meu ego tomara uma dose violenta de esteróides, eu gritava para que todos que ainda estavam no caminho escutassem. I'm the King of the Hill!
O Mino, quando chegou no topo, me contou que me ouviu gritar lá de baixo. Ele realmente é um cara gente fina! Sentou perto e comecamos a conversar pra esquecer o frio. O vento batia pesado no topo e eu estava congelando! Enquanto caminhava, não tinha problema, mas agora que estava parado, sofria. O nascer-do-sol veio como uma bênção. Recompensa pela dura caminhada e alívio - pelo menos psicológico - para o frio cortante. O sol em si vinha tímido, escondido entre as nuvens, pintando uma faixa estreita de vermelho. Mas como um mestre de cerimônias que abre as cortinas para um espetáculo, ele lança sua luz por toda Borneo, revelando toda sua beleza.
A montanha, um encaixe perfeito de blocos de granito, era própria de um cenário lunar. Ela afundava num mar de nuvens. E a vista, que alcançava até Kota Kinabalu, centenas de quilômetros ao norte, se perdia no horizonte, oceano adentro; ao sul, as florestas cobriam as suaves colinas.
Wilfred me acordou do transe em que me encontrava. Era hora de deixar o paraíso. Fomos ultrapassando alguns mais lentos, mas dessa vez com menos freqüência. O número de paradas na descida é menor, então era mais difícil alcançar os que começaram bem antes. E tenho que confessar que até o 'mountain lion' aqui sofria nos degraus... No último quilômetro antes do Headquarters, meus joelhos já estavam vacilando.
Já lá embaixo, pedi para tomar um banho em um dos albergues. Bênção divina! Inferno foi carregar minhas duas mochilas embaixo da capa de chuva pra nao molharem no temporal que comecou. Almocei com o Mino e segui pro ponto esperar meu ônibus para Sandakan.
Desmaiei de cansaço e só acordei quando o ônibus chegou. Fui para o Sandakan Backpackers, um albergue meio carinho mas muito bem-cuidado. O staff me pareceu muito simpático, mas não estava em clima de conversa. Peco licença e vou dormir assim, bem cedo.
16 de agosto de 2007
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