O Fernando me acordou cedo. A idéia era chegar rápido até as Petronas Towers para conseguir ingresso para a ponte que liga os dois edifícios. Não demorei nem um minuto pra me arrumar; dormi de calça jeans, de preguiça de me trocar, uma clara evidência de que já estou na estrada há tempo demais e comecei a ficar "mulambo", como diria Ana Luisa.
Enfim, às nove já estávamos na bilheteria, quando o segurança veio com a notícia: os ingressos tinham acabado. Segundo ele, a fila começa a se formar às oito e os ingressos esgotam em quinze minutos. Depois de resmungar por algum tempo, criamos ânimo para ir ate a KL Tower. "É a quarta maior torre de comunicação no mundo", "a vista é até melhor, 360 graus!" e "o topo fica na mesma altura da ponte em Petronas" foram alguns dos comentários auto-piedosos para tentar superar a raiva de não ter conseguido subir nas torres. E de ter acordado cedo por nada!
Chegando em KL Tower, subimos de elevador com um grupo de indianos. No topo, resolvi me isolar pra tirar minhas fotos. Não sei se era o sono ou os comentários idiotas do inglês, mas eu estava bem anti-social.
Eu não falei do inglês? O tosco confundiu Brasil e México quando o taxista lhe perguntou de onde éramos. Mas o pior foi quando ele tentou consertar: "é fácil confundir países vizinhos..." Parem as prensas! Notícia extraordinária: 'Encontrada a divisa entre Brasil e México. Carnaval regado a tequila agendado para celebrar o acontecimento.' E eu fico me imaginando ao chamar um italiano de francês ou um chinês de indiano... É tudo vizinho, fácil de confundir! Num confronto interno entre orgulho patriótico e tolerância quase budista de viajante, opto por relevar, mas seria hipocrisia dizer que ele me desceu redondo!
Voltando à torre, que é o que importa. A vista realmente imperssionava, mesmo com o tempo nublado que encurtava a visão. Mas eu nem dava muita atenção aos arranha-céus emergindo da cidade... Estava curioso era quanto as mulheres muçulmanas carregando os seus meninos mimados. Como eu queria uma foto! Mas achei inapropriado. Já um turista chinês, não... Tirou tantas fotos que o marido de uma delas entendeu mal e começou a discutir. Fiquei me sentindo aquele irmão mais velho que quer fazer besteira e sabe que vai dar merda, então convence o caçula a ir de "boi de piranha" e fica de longe, só olhando...
Falando em fotos, a única coisa interessante além disso foi um grupo de estudantes locais que pediu para eu fotografá-los com as inglesas, um por um. Pelo menos não foi comigo dessa vez!
Bom, seguimos no trem elevado até Chinatown. Um bazar ao ar livre nos esperava, cheio de souvenirs e roupas e calçados falsificados, nada de meu interesse. Almoçamos por ali e seguimos para Merdeka Square. Hordas de turistas japoneses clicavam suas bazucas fotográficas incessantemente e, assim que chegamos, os flashes se voltaram na nossa direção. Quinze minutos de fama? Não, quinze segundos de puro pânico. Em alguns instantes, uma fila se formava pra tirar foto com os estrangeiros. Eles estavam mais interessados nos loiros, mas como eu tava junto com o grupo, não fui poupado.
Voltamos para o albergue em dois táxis que cobravam pelo taxímetro, algo dificil de encontrar. Mas quatro quadras antes de chegarmos, vimos as meninas andando apressadas na chuva. Como elas nos explicaram, o taxímetro do carro que elas estavam já marcava vinte ringgit quando acharam melhor descer do táxi pra nao falirem. Obviamente, estava adulterado; o nosso não marcava nem quatro ringgit!
Não quis deixá-las na chuva, então desci do carro e cedi espaço pra elas. Nada demais, já que a chuva estava fraca e, devido ao trânsito afogado, eu chegaria no albergue antes deles. Mas elas não acharam o gesto tão trivial: segundo Fernando, vieram no táxi só falando de quanto eu tinha sido gentil e fizeram questão de comprar um chocolate depois pra me agradecer. Me surpreende o espanto delas... Nao é a Inglaterra o país dos gentlemen?
De noite, elas foram embora. Perhentian, se não me engano. Eu fiquei no albergue assistindo jogo de futebol juniores. Quando o Fernando e o inglês decidiram ir assistir um filme, me juntei a eles. Desde que saí do Brasil nao pisava em um cinema... "Die Hard 4.0". Filme sem história, varias explosões, perfeito para quem está morrendo de sono.
No caminho para o shopping, encontramos uma roda de capoeira, se apresentando no meio da rua. Eu e o Fernando tivemos que parar pra participar... Afinal, quer "intercultural experience" maior que jogar capoeira na Malásia com muçulmanas de véu? Foi demais!
Suados e atrasados, fomos para o cinema. Vou contar o final do filme: ele não morre no final! Difícil de acreditar, não? De lá, seguimos para um bar, o "Rum Jungle". Caro, mas com drinks decentes e boa música, me diverti rindo de um povo dançando bem esquisito. Talvez por causa dos três Whisky&Co. que eu tomei? Vai saber, estava em "spoon mood" antes disso já. Ah, e me pediram identidade na entrada... Teoricamente, nao poderia beber por aqui: a idade por lei seria vinte e um. Me senti de volta aos meus quinze anos, tentando armar esquema pra entrar na balada sem ser pego.
Depois voltamos pro albergue, encontrei o cara de Gales que ia também pro aeroporto. Isso eram quatro da manha...
12 de agosto de 2007
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